O Belo no real – A arte de Pegge como uma visão da realidade

Acredito que a arte tem duas incríveis capacidades, a de estagnar e a de dar movimento. Poderia argumentar mais sobre isso, dar explicações através da escultura, ou comparar a arte renascentista e a expressionista ou abstrata. Isso fundamentaria a minha teoria. Acontece que ao falar de arte contemporânea, esses conceitos se turvam um pouco. É difícil falar disso sem pensar em um movimento atrás. A arte de hoje tem uma conexão muito maior com o artista. Ele se torna parte da obra e muitas vezes a obra se torna autobiográfica. Mesmo sendo estática à primeira vista, por ter um meio de manifestação através da pintura ou desenho, é nítido o movimento por trás da obra, na história e na sua construção. Ao ver uma fotografia ou uma pintura, digamos, “realista” é difícil desvincular o momento na qual aquilo foi criativamente desenhado, planejado ou até fruto da espontaneidade do acaso. Daí vem o chamado olhar artístico. O que nenhuma escola ensina ou academia de arte ensina, o olhar sensível. A capacidade de captar sensivelmente, e transformar em composição ou retrato. Em documentar e registrar. Isso, é característica do belo e se espalha por todas as suas manifestações, na literatura, na poesia, na pintura, na música. E daí vem o motivo de porque o belo pode retratar o feio, o ruim. Porque o belo não é aquilo que se retrata, mas sim a capacidade de retratar. Em detalhes, em camadas, em milésimo de segundo em uma fotografia ou em um conjunto de notas em uma música.

Todos nós guardamos isso de uma certa forma e expressamos de outra. A incrível capacidade de ver não pelos olhos, mas pelos sentidos. Ao ver a obra de Pegge, é nítido como a arte não passa só pelos olhos, mas é uma costura de diversos sentidos, que ultrapassam os cinco popularmente conhecidos. Atravessa e ao mesmo tempo condensa até resultar na habilidade de contar histórias, realidades. Nos direciona para lugares que conhecidos, ou desconhecidos, pelo mais simples fato de ter a beleza do real. A realidade que fascina, que transcende e que nos apresenta aquilo que sempre esteve ali, mas que pelo olhar do belo e do sensível se torna o que eu posso chamar de arte. “Menino prodígio criado sem pai” é sua biografia no Instagram. Só que isso é uma biografia muito curta para toda a história que esse artista carrega. A perda, ainda quando jovem, do seu pai. Uma doença que o fez perder a visão e reaprender a ver. Não só como um sentido, mas como uma forma de rever tudo. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, como é dito por José Saramago, retratado em O ensaio sobre a cegueira, a diferença entre as palavras ver e olhar, se encaixa muito bem na obra autobiográfica do artista, expondo uma visão muito além da superficial. Ao começar a entrevista perguntei ao Pegge quem ele era, quantos anos tinha, por que começou a desenhar. Me disse que seu nome é Pedro e que nesse ano fez 23 anos, “e é sobre isso!” Respondeu quando revelei minha idade.

Tendo apenas o ensino fundamental completo, Pegge fez de tudo um pouco. Trabalhou como garçom, em padaria, tocou música na rua. Em 2017, participou de uma oficina de Graffiti no seu bairro, na zona leste de São Paulo. Foi quando ele viu que realmente dava para viver de arte. Muitas pessoas já faziam isso, mas sendo além de um hobby, uma real profissão. Em 2018, resolveu começar a pintar. Tudo que ele tinha era uma tela antiga (já pintada), pincel de maquiagem da sua irmã e tinta guache escolar. E assim fez. Depois de pronta ele conseguiu vender a tela por um valor que considerava alto, mas que a compradora aceitou. Com o dinheiro que recebeu vendendo sua primeira tela, comprou mais duas e vendendo as outras foi comprando mais telas e materiais. Como ele mesmo diz “começou a rodar, não sei o que está acontecendo mais dá para acontecer”. Começou a chamar atenção das pessoas, criar contatos e logo no seu primeiro ano, já realizou a sua primeira exposição individual. Em 2019 realizou outra individual chamada EPHEMERAL na Galeria A7MA, em São Paulo, e foi lá que ele realmente colocou os seus pés no mundo da arte, criando um contato com o seu público além das mídias sociais. Em uma conversa comigo para a Bubblegum Club, Pegge respondeu algumas perguntas, sobre seu trabalho artístico visual e musical, além sua forma de ver o mundo de ser e representar a juventude brasileira.

O que você retrata em suas obras tem uma potência muito grande sobre o cotidiano dos jovens periféricos brasileiros. Diria de forma mais elaborada que a sua forma e produção artística vai além e chega a um retrato de uma classe da sociedade brasileira contemporânea extensa. De onde vem essa inspiração tão fiel e fidedigna a isso?

É um trabalho totalmente autobiográfico. Eu não consigo pintar nada que eu já não tenha sentido ou esteja sentindo. Por isso tem uma grande questão de auto retrato, eu me vejo em outra pessoa e essa pessoa se vê em mim. Eu sou um canal, eu vejo todo esse trabalho como um canal de comunicação. Quando você descobre esse peso, de que outras pessoas leem o que você posta, que veem a tela e se emociona, você vê a importância disso e então você se faz pronto para ser esse canal. Você se faz pronto para falar de sentimento de sendo um jovem preto. Que nunca é falado, mas na internet você pode falar e ninguém sabe quem está falando, mas pelo menos alguém está lendo. A pessoa quer ler, pode ler. Essa importância se move, de conseguir ter um meio de comunicação com os que precisam.

Os títulos das suas obras, junto com elas mesmas tem uma capacidade de realismo muito forte. O uso da luz e da sombra é usado como um flash. Obras como “Quando você vê o bb no baile” ou “Tá pensando nela não né?”, traz uma carga de conhecimento e diálogo sobre o cotidiano desses jovens. Em uma primeira camada sua obra é visual e os seus títulos trazem uma segunda camada, ainda mais profunda. De onde vem a conexão entre a obra e o título?

Eu penso muito nos títulos! É muito importante, é a porta de entrada da obra. No caso do instagram, você vê primeiro a obra e depois vê o título, mas tem que ser uma coisa que te faça ler o resto. Eu penso muito nos títulos como uma parte da obra, não tem nenhuma que não tenha título. Estou nomeado aquilo, é o nome. Tem uma potencia muito forte. Eu levei uma obra agora, para a SP Arte, que tinha sido feita em 2019. Ela não é terminada e nem nunca vai ser, inclusive ela está no instagram. No instagram ela não tem título, porque eu nem sabia como chamá-la. Para expor eu precisava dar um nome e pensei em várias coisas. A obra fala sobre o genocídio preto, que aconteceu no passado e que ainda continua acontecendo. Eu via como me afetou de diversas formas. Então a obra é uma composição como se fosse de um júri só com pessoas pretas. Trazendo a questão de que se esse fosse um júri que uma pessoa racista fosse ser julgada, ela teria medo de ser racista? Porque hoje elas não têm. E um nome para isso é muito forte de se pensar. Até que eu cheguei no “Pele branca, mãos vermelhas”, o que mata fica com as mãos vermelhas e por isso o julgamento. Acho que esse foi o título mais impactante que eu poderia ter dado e hoje eu entendo muito mais da importância de se pensar mais e mais nisso. Por ser uma segunda porta de entrada, de um outro pensamento que vai te levar ali. Quando não tem escrito, é só estética, você pode pensar mil coisas, mas eu quero dar um caminho para a interpretação. Por isso o título e o texto que acompanha o título, agora divaguem nisso.

Você toca instrumentos? Você também é músico?

Toco! Toco sim. O meu primeiro instrumento foi um cavaquinho, ganhei de uma amiga da família e ele era enorme para mim! Com 13 anos, eu queria aprender a tocar violão, um amigo me emprestou o dele e eu fiz umas aulas, mas não gostei. Eu gosto muito de aprender sozinho e quando tem métodos eu acho um pouco chato. Com o tempo eu aprendi e depois voltei ao cavaquinho, porque é quase a mesma métrica. E assim foi com o teclado, baixo e bateria. O mais recente que eu aprendi foi trompete. Acho que até o final do ano, eu vou lançar um álbum também. Já tem umas quatro músicas, todas instrumentais. Música sempre fez parte. Acho que eu gosto mais de música do que de pintura (e ele diz se contradizendo). Acho a música a arte mais completa, você coloca memórias na música, momentos, guarda sensações. A arte e a tela são muito privadas, você tem que ter internet para ver um trabalho meu. Uma coisa que eu tenho questionado muito no meu trabalho é em como transformar isso público.

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