Moisés Patrício - falar através das mãos

Ao redor de nós há todo um mundo visualmente reconhecível. A medida que crescemos, observamos e entendemos esses lugares, pouco a pouco. A paisagem em volta da minha casa, provavelmente é muito diferente da que você vê ao abrir a janela pela manhã. Esse mundo nos cataloga, nos analisar os exclui e inclui. Tudo a minha volta, foi e ainda é recorrentemente conhecido e acatado. Moisés Patrício tem 34 anos. Nascido em São Paulo. Candomblecista desde sempre. Filho de Exu, seu orixá. Como o próprio artista plástico diz: “dentro de mim, tem muitos Moisés”. Através da sua sensibilidade construída em seu terreiro, Moisés sempre foi estimulado a se expressar de uma forma criativa. Seja preparando uma oferenda, entendendo a lógica da composição, das alquimias, das roupas, cores e objetos sagrados. “Ser filho de Exu é uma informação muito importante. Todo o meu estar, o meu estar aqui vendo está ligado a essa cosmovisão, a essa cultura, esse estilo de vida que eu herdo dos Yorubás”. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a série “Aceita?”. Em cinco anos, realiza uma fotoperformance que é continuamente atualizada em sua conta no Instagram. (oq ele falou do instagram). O artista já participou de diversas exposições, como Histórias Afro-Atlânticas, MASP e o Instituto Tomie Ohtake em São Paulo. Além de sua participação na Bienal de Dakar, no Museu de Artes africanas no Senegal e indicado ao Prêmio Pipa, ambos em 2016. Aceitar é um verbo e em sua essência, consiste em receber. Como um questionamento, adicionando uma interrogação, torna-se uma oferta. Em sua série Moisés oferece uma série de objetos, encontrados, coletados. Por diversos lugares a mão do artista se coloca e se insere ali. Na obra o artista ainda adiciona um outro fator, que é a mão preta e a sua relação com o Brasil.

A relação com a mão preta no Brasil é problemática. a mão preta está em todos os lugares a mão diz muito sobre o limite que as pessoas têm de entender toda essa presença negra no país. Automaticamente, a mão é a mais conhecida porque foi a mais explorada. A que estava servindo, mas não só servindo, produzindo todo tipo de coisa. Não só material, intelectual também. Emprenhou em muitas camadas do intelecto e até hoje é subentendido essa nossa colaboração intelectual. E a série “Aceita?” é um pouco dessa tentativa de continuar esse diálogo, com essa consciência do que eu estou vivendo, agora nesse momento nesse tempo, junto com as questões velhas. Perguntas velhas, dos ancestrais, que ainda não foram respondidas. E a partir de um gesto, mas não só de um gesto; de um pensar, mas não só de um pensar, preto. E assim, o mais legal da arte é que a gente pode seduzir as pessoas, e a arte nada mais é do que a estética com essa função de aproximar as pessoas. Para mim esse é o caminho, eu vou pela estética, para falar de questões que estão imbricadas. A questão religiosa, o racismo religioso está ligado ao racismo estrutural. Tá tudo muito ligado.

Exu é o orixá da comunicação. É ele que faz a ponte entre as divindades e os seres humanos. A partir dessa comunicação, Moisés quer criar um corpo coletivo. Transitando em universos. É aí que entra o meu questionamento com a questão dos espaços. Como pode ser visto o espaço urbano brasileiro, o espaço de São Paulo? Um espaço brasileiro, que muitas vezes renega o próprio Brasil.

A gente vive num apartheid, de um jeito diferente do que foi na África do Sul, mas é um apartheid. É muito escancarado, não é muito sutil. Hoje com a tecnologia, a gente pode constatar aquilo que sempre acontecia. Com a série “Aceita?” foi esse meu exercício de romper essas fronteiras sociais. De desafiar um pouco esse apartheid, porque eu sempre fui muito respeitado no meu Terreiro. Meus pais são do Candomblé, meu pai, meu avô, todo mundo. Pela vivência tinha muita coisa que eu não entendia, então eles sempre buscaram me proteger muito. Eles diziam “não dá pra sair”, “não dá pra ficar sozinho”, “você é alvo mesmo, isso não é brincadeira”. Quando eu fui ganhando essa maturidade, automaticamente por ser também desse orixá do caminho (Exu), que faz esse canal da comunicação, ele também tá caminhando pra lá e prá cá, levando as coisas e trazendo as coisas. Tanto conhecimento quanto qualquer coisa, é o orixá do movimento. Tudo que tem movimento tem Exu. Eu comecei a experimentar, primeiro fui até a esquina da minha casa. Depois com a vinda do Bauzin, eu comecei a acessar os museus com a tutela dele, por que ele era um homem branco. Era sempre uma sensação maluca, porque você vai chegando nesses lugares que são interditados simbolicamente. Você vai vendo os olhares, as preocupações das pessoas. Tudo que a gente conhece do racismo.

Fui me tornando adulto, e fui me desvinculando, queria fazer as coisas sozinho, sem ter a tutela de uma pessoa branca. Esse é o meu exercício de vida, até hoje eu venho experimentando esses lugares que foram construídos, por toda a história do Brasil, esses espaços foram consolidados, ampliados. o desafio é entrar nesses lugares e entender o meu corpo. A série para mim é um pouco desse exercício, começou dessa necessidade de entender o porque que esse lugar é restrito, por que elas tem uma dificuldade de lidar comigo. Antes eu não tinha a resposta que era o racismo. Eu só tinha a pergunta. É esse exercício, como entrar nesses lugares, nesses espaços “apartheidos”, nessa outra casa e entender como ela reage. E aí comparar o discurso do que elas vem fazendo e do que elas vem praticando, no jornal, na TV. Tem uma voz que vai legitimando esses neocoloniais, “a o Brasil é um país pacífico, as pessoas são muito amigas”. E todo dia, um caminhão de jovens mortos da periferia. É um projeto político. Eu tenho o interesse em entender isso, ver o que eles estão falando. No micro e no macro.

A série acontece no instagram, em uma mídia social. Com mais de mil imagens, a série pode ser vista inteiramente. Sem nenhuma barreira ou impedimento, social, de distância. Uma forma de criar laços e formações intelectuais mais independentes.

Eu elegi como plataforma a rede social. A série acontece no instagram. Eu faço essa foto, essa foto performance, esse registro. Do meu trânsito, dos meus pensamentos e do meu corpo. Eles são inseridos diretamente na rede. Não há um filtro para uma galeria, museu. O filtro sou eu. Eu estou falando sobre isso e quero saber a opiniao de voces. Vocês aceitam? Como um exercício, também, de minar esse monopólio da narrativa.

Perguntei então a Moisés por que oferecer? Estender a mão e dar de presente. Porque se colocar à disposição?

A mão estendida é uma aposta que eu tenho. Eu não acredito que os mesmos modos operantes do branco, e quando eu digo do branco, eu digo desse europeu, português, que a gente herdou e congelou, porque até o próprio português avançou. A gente ficou aqui no tempo/espaço com os valores e erros históricos que a gente alimenta. Eu tento não reproduzir os mesmos modos violentos e opressivos de diálogo. Então eu ofereço uma mão estendida, em busca dessa conversa. Porque eu acredito, como filho de Exu, que a comunicação cura também. A gente precisa conversar, por que a doença que a gente sofre, historicamente falando, tá muito ligada ao não falar sobre o assunto, ao evitar. Acredito que o diálogo é um gesto político e um gesto curador. Eu estendo a mão buscando esse diálogo, mas é um diálogo que tem que ser recíproco. A reciprocidade acontece naturalmente e eu deixo a pessoa com a questão. Se ela quer desenvolver essa questão, receber essa cura, a gente desenrola. Conversa, vai indo, falo, me posiciono, me exponho. Se ela nao quer, ela vai ter que conviver com a questão do mesmo jeito. Por que isso é uma questão do monopólio do homem, voce olhou e entrou (no olho). Não fica parado na retina. Você internaliza e aquilo vai ter que ser desenvolvido em algum momento.

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