A arte de Mulambö - quando e como a obra se torna significativa

Diversos termos no Português do Brasil se originam da época da escravatura. Usados continuadamente, a cada dia se desprendem mais de seus significados e origens. Parece que caem em um esquecimento e se tornam outras coisas. São terminologias que se transformam, mas olhadas bem de perto continuam com a mesma essência. Cabe aí um grande trabalho social e linguístico de lembrar as origens das palavras, seu significados primários e iniciais. Ter real consciência daquilo que falamos. Mulambo é um termo angolano. Assim como diversos termos, também se originou nos tempos da escravatura. Os angolanos que foram traficados para o Brasil eram chamados de Mulambos por seus Senhores de Engenho e Patrões de fazenda. Após a abolição da escravatura no país, o termo sofreu algumas alterações. Nos dias atuais, não faz referências à Angola. Porém faz referência à sujo, roupas gastas, ou uma pessoa com cara amassada, mal dormida. Também se refere aos torcedores do Flamengo, time de futebol brasileiro, do estado do Rio de Janeiro. O termo também foi escolhido por João da Motta como seu nome artístico. O artista conhecido como Mulambö, realizou diversas exposições coletivas e individuais como Prato de Pedreiro no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Tudo nosso no MAR (Museu de Arte do Rio), ambas em 2019. Em uma conversa comigo e com a Bubblegum Club, Mulambö fala mais sobre sua arte e sobre ele mesmo. Além de refletir sobre as temáticas, materiais, cores e suportes apresentados em seus trabalhos.

Não tem museu no mundo como a casa da nossa vó. Tudo isso que falei é sobre fazer arte por quem veio antes de mim e pra quem virá depois. Esse sentimento de fazer parte é o que me motiva a trabalhar. Seja num desfile de escola de samba, no mar da Praia da Vila em Saquarema ou num trabalho que eu fizer, e estar sempre com o pé no chão é fundamental.

– Malambö

Acho que uma das coisas que mais me deixa curiosa é quanto ao seu nome artístico. Por que Mulamb ö? De onde veio?

O nome surge de forma muito natural. Quando era moleque eu passava o dia todo na rua, todo sujo das brincadeiras e toda vez que chegava em casa eu ouvia que estava esmulambado, todo mulambo (palavra que aqui no Brasil ganha um sentido pejorativo de sujo, farrapo, maltrapilho, largado). Então é isso, o nome é afirmar e subverter essa posição e me assumir Mulambö e tudo que esse nome carrega junto comigo. É entender que o pé sujo de jogar bola e a mão suja de tinta partem do mesmo lugar.

Seu trabalho artístico chama muito atenção pelas cores e pelo suporte. Cores bastante recorrentes (como o vermelho) chamam a atenção para a ancestralidade. O suporte, variado em panelas, vassouras, chinelos. Esses elementos fazem com que o resultado final seja bastante objetivo, direto. Pensando na arte como um canal de comunicação e forma de diálogo, você acha que essa objetividade dos trabalhos atingem a sua ideia inicial?

Essa objetividade é algo que procuro demais. Inclusive foi como tudo começou, eu me assumo Mulambö através de uma volta pra casa. Eu fazia umas paradas que não me preenchiam e me levavam pra um lugar que era distante geográfica, física e subjetivamente de mim. Então eu volto pra casa em Saquarema e procuro essa reconexão comigo, com os meus e com o meu lugar para poder falar o que de fato me fazia bem, o que me fazia falar de boca cheia. Essa objetividade, esse primeiro contato através da imagem é pra mim fundamental justamente por isso. Tudo parte de um desejo de fazer arte como uma placa de ‘Perigo Correnteza’ que encontramos na praia. Mas deixar claro através do meu trabalho, que nesse caso nós é que somos o mar.

Por se tratar de arte contemporânea, sabemos que o suporte do artista pode ser tudo e inclusive o lugar. O espaço da periferia se encaixa muito nisso. Como é retratar o cotidiano na arte? Em projetos e exposições como Prato de Pedreiro, As dificuldades de Manter o pé no chão e Queria um pincel, ganhei uma vassoura isso se torna bastante evidente.

Falar do nosso cotidiano é falar da gente. Usar símbolos que me cercam durante toda a minha construção como ser humano no subúrbio do Rio de Janeiro, entre Saquarema e São Gonçalo é falar das potências que a gente encontra e ativa todos os dias mas que as estruturas que nos cercam tentam apagar. Ser negro, ser caiçara, ser periférico, por exemplo, e ser autobiográfico é uma forma de resistência. E somos autobiográficos também quando falamos do nosso lugar, porque falamos de gente como a gente. É assim que a gente transforma vassouras em tridentes, subvertendo e recriando potências.

Como um trabalho que tem grande potência autobiográfica, a sua produção artística também tem uma grande capacidade de espelhamento. É possível ver uma grande realidade brasileira no seu trabalho. Como você enxerga isso?

Pra mim essa presença é um fundamento do meu trabalho. Minha produção é sobre e para essa vivência porque é o que me faz ser todos os dias. Foi muito importante pra mim, o momento que começo olhar pra minha realidade e entender como potência, como força e, principalmente, como estrutura e é nesse movimento que meu trabalho acontece de verdade.

Sua relação com o esporte é nítida. Pinturas de pessoas jogando futebol, pranchas de surf como suporte. Qual é a importância dessa linguagem na sua vida pessoal e no seu trabalho?

Até uns 15, 16 anos eu queria mesmo era ser jogador de futebol e como cresci numa cidade de praia, conhecida exclusivamente pelo surfe que é Saquarema não tinha como não ter essas marcas muito presentes no meu trabalho, porque são muito fortes na minha construção como pessoa. Sou torcedor do Flamengo doente também, então essas paixões e as lógicas que eu aprendi com o futebol são muito potentes até hoje. Entender, por exemplo, que para o ponta de lança fazer gol, o cabeça-de-área precisa roubar a bola. E como eu jogava de cabeça-de-área eu continuo tentando desarmar o outro time pros meus atacantes poderem finalizar. Essa consciência do meu lugar aprendi muito com o esporte.

Você atua com espaços alternativos de exposição, como a internet ou espaços descentralizados. Como é o acolhimento e a reciprocidade desses trabalhos? Você acha que teria todo esse espaço em uma galeria? Ou você acha que tudo isso te permite criar um espaço e um canal de diálogo mais ágil?

A internet me possibilita um alcance que seria muito difícil de conseguir em outros lugares, como por exemplo chegar em alguém que nunca pisou numa galeria de arte na vida. O meu trabalho, para além das obras em si, do objeto material, é o que eu tento contar através das imagens e símbolos que crio e recrio. Então, o espaço onde eu contar essas histórias acaba se tornando mais um elemento importante desses enredos, seja no instagram ou na parede de um museu. Hoje eu sou representado por uma galeria no Rio de Janeiro e já realizei algumas exposições em espaços mais hegemônicos. Mas é importantíssimo reconhecer todas as forças e interesses que movimentam esses circuitos e a partir daí, traçar estratégias de sobrevivência para lidar com essas questões, pensar a melhor forma de aproveitar essas oportunidades pois quando a gente tá caminhando, principalmente nesses espaços normalmente distantes a nós, tem muitas pessoas como a gente que estão do nosso lado e acreditam em nós. O diálogo que a internet possibilita é diferente do que um centro cultural num bairro de periferia proporciona que por sua vez já é completamente diferente de uma experiência em uma galeria frequentado pelas figuras que legitimam o circuito. Pensar, por exemplo, a quantidade de pessoas parecidas comigo em cada um desses espaços e a própria percepção que esses lugares têm das coisas que falo já é um elemento novo numa mesma história que eu conto através do meu trabalho. A parada é ir calangueando entre esses universos com plena consciência de onde a gente partiu, que no meu caso, é pra onde eu retorno também.

 

 

 

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