A fotografia como processo autobiográfico e sócio-cultural | Uma conversa com Regiane Rios

As relações com o nosso entorno sempre serão presentes. As recordações ficam guardadas e pouco a pouco (ao longo de nossa vida) vão se exibindo, justificando, materializando ou simplesmente desaparecendo. As memórias e recordações são uma parte que conecta o ser humano, a linguagem imagética e a fotografia. Alguns estudiosos dizem que as memórias são um conjunto de sensações guardadas. Cores, borrões, barulhos. Talvez isso explique a nossa grande capacidade de lembrar, pois está completamente relacionada a capacidade de viver também. Penso então, quais seriam os desafios da fotografia contemporânea. Como a arte de fotografar, pode se desprender das outras milhares de imagens que vemos todos os dias? Somos abarrotados delas. Vemos todos os dias, todos os momentos. Como seres ditos “tecnológicos”, pagamos um grande preço da banalização da imagem. Do uso exacerbado dela. Há algum tempo atrás, fui a um museu de fotografia. Ele se localizava em uma cidade pequena. Além de todas as imagens, o museu dedicava uma enorme atenção a toda a “magia” que envolvia a fotografia nos séculos anteriores e principalmente na forma que o fotógrafo encenava e criava ali, não só um estúdio, mas um cenário.

Ele fotografava famílias reunidas, crianças, formandos. No último andar, era onde ele guardava todos os seus negativos. Era uma coleção enorme. Talvez, a fotografia digital nos tenha desvinculado de todo o tamanho de um arquivo, tudo cabe em um HD. Isso nos distancia da recordação da capacidade de registro. De marcar e apontar momentos. Longe de todo o saudosismo e nostalgia fotográfica, para mim, esses apontamentos e demarcações que a fotografia nos oferece é sua maior riqueza. Isso, não só nos presenteia com nossas próprias memórias, ou de familiares. Nos oferece também a recordações de lugares que não conhecemos. De tradições e culturas, que não são as nossas. Tudo isso, serve de apoio para uma formação de cultura plural, descendente e mais do que tudo, uma cultura viva. Hoje a fotografia não é mais apenas um registro, não é um adorno do passado. Ela é viva e mostra aquilo que nos enriquece e engrandece, culturalmente, mentalmente e carinhosamente. As fotografias de Regiane Rios nos demonstra claramente isso. É uma fotografia cultural, que preserva historicamente tradições. Além de nos convidar para imergir nesse mundo. São muitas vezes detalhes, recortes, que se abrem em uma grande forma de materializar além da memória. Uma forma contemporânea da capacidade de registrar através da fotografia.

O seu trabalho, por mais que sejam fotografias de outras pessoas e do mundo ao redor me parece muito autobiográfico também. Você aborda e explora temáticas que não estão apenas ao seu redor, mas dentro de si mesma também. Como é esse mergulho em sua própria identidade através do externo?

Digo sempre que finjo tão bem que sou extrovertida que todo mundo acredita, mas isso também faz parte do exercício relacional que a fotografia humanizada nos exige que é estar aberta às trocas vivenciais com as pessoas, o ouvir verdadeiramente suas histórias e ter interesse nelas. Esse mergulho no afeto e o interesse pelo sensibilidade no ato de fotografar faz com que eu exponha minha personalidade mais íntima e submersa de forma que jamais faria em palavras. É a forma que me sinto mais confortável em partilhar sobre minhas narrativas sobre o humano e o que o sentimentos, crenças, identidade e descobertas que o afetam. É um paradoxo que seja absurdamente íntimo apesar de ser altamente público. E acho que a fotografia também seja isso: uma relação que melhora a medida em que se torna mais íntima, seja para quem cria ou para quem atinge.

O destaque da cultura em suas fotografias desabrocha uma perspectiva de acolhimento e de conforto. Além da imagem em si, elas são convites. Pensando na fotografia como uma forma (também) de comunicação, como você acredita que as suas fotografias se relacionam com o espectador?

Pouco tempo depois que comecei a fotografar comecei a sentir que meu trabalho deveria ter alguma função política e não apenas estética, meu desejo sempre foi e continua sendo falar sobre coisas importantes não só para mim. A questão racial é uma luta que atravessa milhões de pessoas em todo o mundo há séculos e ao recortar a verdadeira história do Brasil vemos que o nascimento do país se sustentou em uma violenta colonização que massacrou as tribos indígenas que aqui já habitavam e, não o bastante, ainda sequestrou pessoas dos países africanos para que fossem explorados de todas as formas imagináveis e infelizmente os descendentes deles, ainda vivem o mesma violência mas em reproduções mais sofisticadas e políticas.

Nosso ancestrais negros foram destituídos de suas próprias identidades enquanto indivíduos, sendo percebidos apenas como máquinas de trabalho, mercadoria, objeto de estudo. Seus nomes foram apagados, seus laços familiares extintos e suas imagens eram meros documentos que inauguraram o racismo científico que buscava catalogar, devassar e analisar a natureza da sua existência. Pensando nessa reparação visual, dirijo meu trabalho para ressignificação de imagens dos corpos e histórias negras, buscando gerar memórias de identidade, aquilombamento, conhecimento, afeto, tradições. É preciso perceber a grande importância na construção dessas imagens a partir de olhos negros com lugar de fala para a construção das histórias sentidas, também literalmente, na pele. Creio que cada pessoa pode acessar as imagens de formas diferentes porque elas também interagem com a repertórios de vida muito individuais, mas espero que eu possa levar amabilidade e orgulho identitário com o que compartilho. Desejo influenciar outras pessoas negras, sobretudo mulheres, a também produzirem imagem que falem sobre suas vidas.

Seu trabalho tem uma grande relação com a cultura candomblecista. As fotografias de festas populares e do cotidiano se destacam. Como é fotografar grandes manifestações culturais? Como decidir para onde direcionar a câmera?

Eu produzo melhor quando me divirto e sempre busco me divertir quando fotografo. A diversão não é necessariamente estar na festa do início ao fim, encontrar com seus amigos, bebendo ou dançando. Isso também seria maravilhoso mas nem sempre possível. Falo no sentido de entender o propósito do que está acontecendo ao seu redor e se interessar verdadeiramente por isso. Eu costumo pensar: eu estaria se não fosse para fotografar? É importante ter interesse na história da celebração para que você saiba o que pode acontecer ali e isso também dará condições para se posicionar melhor para momentos importantes, além de fazer com que você conheça mais sobre a cultura da sua região. Acredito que a intimidade com o tema faz com que você acesse uma atmosfera invisível e necessária para se emocionar e a partir de então encontrar honestidade no que fotografa.

Um bom exemplo de uma festa que me arrebatou foi o Presente Ecológico da Comunidade do Solar do Unhão realizada pelos moradores e pescadores em agradecimento Yemanjá. A festa acontece nas vielas do Solar que são bem estreitas e que acomodam o cortejo, moradores, atabaques, fotógrafos, crianças, flores, alfazema, visitantes e muita fé. Ou seja, é quase impossível fotografar, principalmente se estiver chovendo, como foi neste ano. Pelo conjunto da obra, acabei desistindo de insistir em fotografar ainda no primeiro terço do percurso e entendi que seria também muito bom seguir com cortejo entoando músicas em saudação à Yabá que faz parte da minha caminhada religiosa. E foi incrível viver aquilo com toda aquelas pessoas que não se conheciam e pareciam tão íntimas por estarem naqueles momentos falando da mesma coisa. Isso reduziu em muito a ansiedade por fotografar, que virou uma ação secundária. No fim acabei fazendo umas 4 ou 5 fotos, por situações confortáveis que surgiram no caminho, e que ficaram bem bacanas porque traduziam tudo que eu pude sentir naquela festa.

Os limites e as barreiras culturais se tornam, infelizmente, cada dia mais presentes. Você acredita que suas fotografias são também um registro cultural histórico?

Acredito que é a fotografia documental tem o papel importantíssimo de não permitir que a história seja negligenciada, nos oferecendo a possibilidade de revisitar o que não vivemos e ser a memória dos que virão depois de nós. No terreiro de candomblé, do qual sou filha de santo, realizo um trabalho de produção memória visual com registros cotidiano das relações de afeto, da formação de famílias que não requisitam partilha de mesmo DNA, de resistência racial enquanto quilombo, do conhecimento através da vivência, da importância da musicalidade e da perpetuação das tradições religiosas, entre outras coisas também importantes. A ideia de que esse conteúdo seja acessado pela própria comunidade daqui

também há algumas décadas, quando já não estivermos aqui para contar todas as histórias dessa época. Dessa forma podemos ter a tradicional e importantíssima oralidade do candomblé associada também à iconografia para que que não tenhamos mais apagamentos históricos. Me dei conta da importância de conhecer os rostos da ancestralidade quando percebi que aos 35 anos a única memória que tinha da minha avó era de uma lembrança embaçada e do meu avô nem ao menos isso pois ele não foi fotografado em vida e será uma eterna lacuna visual na minha história. Esse desconforto me fez perceber novamente um sentido maior na fotografia, pensando que ela seja de formainegável, uminstrumentodeperpetuaçãodehistórias,vidasepessoasquenuncase extinguirão enquanto houver ao menos imagem para relembrá-las.

Suggested Posts

SA POP ARCHIVE

BUBBLEGUM CLUB TV

Get our newsletter straight to your mailbox